Muitas oportunidades de comunicação acontecem em momentos comuns: durante uma brincadeira, na hora de escolher uma roupa, enquanto a família prepara uma refeição ou quando a criança mostra algo que chamou sua atenção.
Estimular a comunicação infantil não significa transformar a rotina em uma sequência de exercícios, perguntas ou cobranças. O objetivo é perceber como a criança já se expressa e criar condições para que ela amplie, aos poucos, suas possibilidades de interação.
Falar é uma forma importante de comunicação, mas não é a única. Olhares, movimentos corporais, expressões faciais, gestos, apontar, sons, palavras, sinais, fotografias, símbolos e recursos de comunicação alternativa também podem transmitir mensagens.
Neste artigo, você vai conhecer estratégias simples para favorecer a comunicação no dia a dia, respeitando o tempo, os interesses e as diferentes formas de expressão de cada criança.
Comunicação começa antes das palavras
Antes de falar, a criança já pode comunicar interesse, recusa, desconforto, curiosidade e desejo de proximidade.
Um bebê pode estender os braços para pedir colo. Uma criança pode levar um adulto até um objeto, apontar para algo que deseja, afastar o prato, sorrir durante uma brincadeira ou produzir um som para chamar atenção.
Esses comportamentos ganham significado quando outra pessoa percebe a tentativa de comunicação e responde a ela.
O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, utiliza a expressão serve and return para explicar essas trocas: a criança inicia uma interação por meio de um som, gesto, expressão ou movimento, e o adulto responde de maneira atenta. Essa alternância ajuda a construir bases importantes para a comunicação e para as habilidades sociais. Saiba mais sobre as interações responsivas.
Por isso, antes de ensinar novas palavras, vale observar:
- como a criança pede ajuda;
- como demonstra que não quer algo;
- o que faz para compartilhar um interesse;
- como chama a atenção de outra pessoa;
- como reage quando alguém responde;
- quais situações favorecem sua participação;
- quais ambientes dificultam sua comunicação.
A resposta do adulto mostra à criança que suas iniciativas têm valor e podem produzir efeitos no ambiente.
O que significa estimular a comunicação?
Estimular a comunicação significa criar oportunidades reais para que a criança participe de trocas com outras pessoas.
Isso não exige que ela repita palavras, responda corretamente a todas as perguntas ou utilize somente a fala. O estímulo acontece quando o adulto:
- demonstra interesse pelo que a criança está fazendo;
- reconhece gestos, sons, olhares e outras iniciativas;
- associa palavras ao que está acontecendo;
- oferece tempo para que a criança responda;
- cria momentos de troca e alternância;
- apresenta formas mais claras de comunicar uma mensagem;
- adapta sua linguagem ao nível de compreensão da criança;
- respeita recusas, pausas e necessidades de regulação.
O mais importante não é a quantidade de palavras ditas pelo adulto, mas a qualidade da interação. Uma frase curta, relacionada ao interesse da criança e dita no momento certo, pode ser mais útil do que uma explicação longa.
Observe como a criança já se comunica
Toda criança possui um repertório próprio. Algumas utilizam frases; outras combinam palavras, gestos e sons. Há também crianças que se comunicam principalmente por movimentos corporais, objetos, imagens, sinais ou dispositivos.
Antes de tentar modificar esse repertório, procure compreender o que cada comportamento pode estar comunicando.
| Forma de comunicação | Exemplo | Possível resposta do adulto |
|---|---|---|
| Apontar | A criança aponta para o copo | “Você quer água.” |
| Entregar um objeto | A criança entrega um pote fechado | “Você quer ajuda para abrir.” |
| Afastar ou empurrar | A criança afasta um alimento | “Você não quer mais.” |
| Olhar alternado | A criança olha para o brinquedo e depois para o adulto | “Você viu o carrinho!” |
| Som ou vocalização | A criança produz um som diante de uma bolha de sabão | “Mais bolhas?” |
| Palavra isolada | A criança diz “bola” | “A bola caiu.” |
| Imagem ou símbolo | A criança entrega a figura do banheiro | “Você quer ir ao banheiro.” |
A interpretação nem sempre estará correta. Quando houver dúvida, o adulto pode confirmar de maneira simples: “Você quer ajuda?” ou “É isso que você está mostrando?”.
O objetivo não é adivinhar tudo rapidamente, mas construir um entendimento compartilhado sem transformar o momento em um teste.
Como estimular a comunicação no dia a dia
1. Siga o interesse da criança
Observe o que prende a atenção da criança naquele momento. Pode ser um carrinho, uma folha no chão, uma música, um animal, a água caindo da torneira ou uma sequência que ela repete durante a brincadeira.
Em vez de interromper o interesse para apresentar outra atividade, entre na experiência que já está acontecendo.
Se a criança estiver girando as rodas de um carrinho, por exemplo, o adulto pode aproximar outro carrinho, imitar o movimento e comentar:
“Está girando.”
“A roda parou.”
“Vamos de novo?”
Seguir o interesse da criança aumenta a chance de que a linguagem apresentada tenha relação com aquilo que ela está percebendo.
2. Aproxime-se sem invadir
Posicione-se de forma que a criança consiga perceber sua presença, suas expressões e os objetos compartilhados. Isso pode significar sentar no chão, ficar ao lado dela ou colocar o brinquedo em uma área visível para ambos.
Não é necessário exigir que a criança mantenha contato visual. Ela pode participar olhando para o objeto, aproximando o corpo, sorrindo, repetindo uma ação ou respondendo de outra maneira.
A atenção compartilhada não precisa acontecer de uma única forma. O importante é construir uma experiência em que duas pessoas possam se envolver com o mesmo acontecimento.
3. Comente mais e pergunte menos
Perguntas podem ajudar a manter uma conversa, mas uma sequência constante de perguntas pode transformar a interação em uma avaliação.
Compare:
“Que cor é essa?”
“O que é isso?”
“Como esse animal faz?”
Agora observe uma alternativa:
“O carro azul está rápido.”
“O cachorro está dormindo.”
“Essa torre ficou alta.”
Os comentários oferecem modelos de linguagem sem exigir uma resposta imediata. A criança pode ouvir, observar, imitar, complementar ou simplesmente continuar a brincadeira.
Isso não significa eliminar todas as perguntas. A proposta é equilibrá-las com comentários naturais e relacionados ao contexto.
4. Faça pausas e espere
Algumas crianças precisam de mais tempo para compreender o que foi dito, organizar uma resposta ou escolher como vão se comunicar.
Depois de fazer um comentário, oferecer uma escolha ou iniciar uma brincadeira, espere alguns segundos. Mantenha uma postura disponível, sem repetir a pergunta imediatamente.
Durante a pausa, observe:
- mudanças na expressão facial;
- movimentos em direção ao objeto;
- gestos;
- apontar;
- sons;
- palavras;
- uso de imagens ou sinais;
- tentativas de continuar a atividade.
A pausa cria espaço para a participação da criança. Sem esse espaço, o adulto pode acabar conduzindo toda a interação sozinho.
5. Amplie a mensagem da criança
Quando a criança comunica algo, o adulto pode responder com uma versão ligeiramente mais completa da mensagem, sem exigir repetição.
Se ela disser:
“Bola.”
O adulto pode responder:
“A bola caiu.”
Se ela apontar para o biscoito:
“Você quer o biscoito.”
Se disser:
“Cachorro corre.”
O adulto pode acrescentar:
“O cachorro está correndo rápido.”
Essa estratégia apresenta novas palavras e estruturas dentro de uma situação que já faz sentido. A ASHA recomenda responder às tentativas de comunicação e evitar interromper constantemente a criança para corrigir pronúncia ou uso de palavras. Veja as orientações da ASHA para famílias.
6. Ofereça escolhas reais
As escolhas ajudam a criança a participar e podem favorecer diferentes formas de comunicação.
Em vez de perguntar apenas “O que você quer?”, apresente duas opções:
“Você quer banana ou maçã?”
“Vamos brincar com o carro ou com os animais?”
“Você quer a camiseta azul ou a verde?”
Mostre os objetos, fotografias ou símbolos enquanto fala. A criança pode responder apontando, olhando, tocando, falando, entregando uma imagem ou utilizando seu recurso de comunicação.
Evite oferecer uma alternativa que não poderá ser atendida. A escolha precisa ser verdadeira para que a comunicação mantenha seu significado.
7. Crie brincadeiras com turnos
Brincadeiras de alternância ajudam a criança a perceber que uma interação pode ter começo, resposta e continuidade.
Alguns exemplos:
- jogar uma bola de uma pessoa para outra;
- montar uma torre colocando um bloco por vez;
- empurrar um carrinho alternadamente;
- fazer bolhas de sabão e esperar um pedido de continuidade;
- completar partes de uma música conhecida;
- imitar sons e movimentos;
- alimentar um boneco por turnos;
- esconder e encontrar objetos.
O adulto pode marcar a alternância com frases curtas:
“Minha vez.”
“Sua vez.”
“Agora você.”
“De novo?”
A brincadeira deve continuar agradável. Se a criança demonstrar cansaço, desconforto ou desejo de parar, a pausa também precisa ser respeitada.
8. Use livros sem transformar a leitura em prova
A leitura compartilhada oferece oportunidades para nomear, comentar, imaginar e relacionar acontecimentos.
Não é necessário ler todas as páginas ou seguir o texto exatamente. A criança pode querer observar apenas uma imagem, voltar algumas páginas ou falar sobre um detalhe.
Durante a leitura, experimente:
- nomear o que chamou a atenção da criança;
- imitar sons dos personagens;
- relacionar a história com situações conhecidas;
- completar frases previsíveis;
- apontar para imagens enquanto comenta;
- esperar para que a criança vire a página;
- aceitar gestos, sons e expressões como participação.
Ler e cantar juntos estão entre as atividades recomendadas pela ASHA para ampliar a exposição da criança à linguagem durante a rotina.
Comunicação nas situações cotidianas
Não é preciso separar um horário extenso para trabalhar comunicação. Pequenas adaptações podem ser inseridas em atividades que já fazem parte do dia.
Durante as refeições
O adulto pode nomear alimentos, oferecer escolhas, comentar temperaturas, sabores, quantidades e ações:
“A sopa está quente.”
“Você quer mais?”
“Acabou o suco.”
Também é possível disponibilizar imagens ou símbolos para palavras como “mais”, “terminou”, “água”, “ajuda” e “não quero”.
Na hora de se vestir
Apresente duas opções de roupa, nomeie partes do corpo e faça pequenas pausas antes de continuar:
“Primeiro a meia.”
“Agora o sapato.”
“Você quer o casaco azul ou o verde?”
Durante o banho
Use palavras relacionadas às ações que estão acontecendo:
“A água caiu.”
“Vamos lavar o cabelo.”
“Cadê o pé?”
Músicas curtas e repetitivas também podem tornar a sequência mais previsível.
Nas brincadeiras
Imite ações realizadas pela criança, introduza pequenas variações e espere sua reação. Se ela empilhar blocos, o adulto pode construir ao lado. Se estiver alinhando animais, pode acrescentar um som ou fazer um dos animais caminhar.
A participação do adulto deve ampliar a experiência, e não controlar toda a brincadeira.
Em passeios
Comente sons, movimentos e acontecimentos:
“O ônibus chegou.”
“O cachorro está latindo.”
“A luz ficou verde.”
Essas situações ligam a linguagem a experiências concretas e compartilhadas.
O que pode dificultar a comunicação
Algumas atitudes bem-intencionadas podem aumentar a pressão e reduzir a participação da criança.
Fazer perguntas o tempo todo
Quando cada interação exige uma resposta correta, a criança pode perder o interesse ou passar a evitar aquele momento.
Misture perguntas com comentários, observações e pausas.
Pedir para repetir muitas vezes
Frases como “Fala direito”, “Repete” ou “Diz o nome” podem colocar o foco no desempenho, e não na mensagem.
Quando compreender a intenção, responda ao significado e apresente naturalmente um modelo mais completo.
Fingir que não entendeu para obrigar a criança a falar
Se o adulto compreendeu o pedido, prolongar deliberadamente a situação pode gerar frustração.
É possível reconhecer a mensagem e, ao mesmo tempo, apresentar uma forma adicional:
A criança aponta para a água.
O adulto responde: “Água. Você quer água.”
Corrigir cada palavra
Correções frequentes podem interromper o fluxo da comunicação. Em muitos momentos, é mais útil responder naturalmente usando a forma correta.
Se a criança disser “tato” para “gato”, o adulto pode responder:
“Sim, o gato está ali.”
Exigir contato visual
A comunicação pode acontecer sem contato visual contínuo. Algumas crianças escutam e participam melhor quando olham para o objeto, movimentam o corpo ou mantêm certa distância.
Observe a participação de forma mais ampla.
Antecipar todas as necessidades
Quando tudo é entregue antes que a criança tenha qualquer oportunidade de se manifestar, algumas trocas podem deixar de acontecer.
Isso não significa esconder itens essenciais ou provocar frustração. Basta criar pequenas pausas naturais, oferecer escolhas e manter recursos de comunicação acessíveis.
Permitir que as telas substituam todas as interações
As telas podem fazer parte da rotina familiar, mas não devem ocupar todos os momentos disponíveis para brincadeiras, conversas e trocas presenciais. A própria ASHA recomenda observar se o uso de telas está substituindo oportunidades de interação entre a criança e outras pessoas.
E se a criança não utilizar a fala?
A ausência ou o uso limitado da fala não significa ausência de comunicação.
A criança pode utilizar:
- gestos;
- movimentos corporais;
- expressões faciais;
- sons;
- sinais;
- objetos;
- fotografias;
- símbolos;
- pranchas de comunicação;
- aplicativos ou dispositivos de comunicação alternativa.
Esses recursos não devem ficar guardados até o momento da terapia. Quando fazem parte do sistema de comunicação da criança, precisam estar disponíveis nas atividades cotidianas.
A comunicação aumentativa e alternativa, também conhecida como CAA, pode complementar ou substituir temporária ou permanentemente a fala, conforme as necessidades da pessoa. Segundo a ASHA, a CAA não impede o desenvolvimento da fala e pode favorecer comunicação, linguagem e aprendizagem em crianças com necessidades complexas de comunicação. Consulte a orientação da ASHA sobre comunicação funcional e CAA.
A escolha do recurso deve ser individualizada e orientada por profissionais qualificados. Não existe uma única prancha, aplicativo ou conjunto de figuras adequado para todas as crianças.
E no caso de crianças autistas?
As estratégias precisam considerar o perfil de desenvolvimento, os interesses, as formas de comunicação e as necessidades sensoriais de cada criança.
Recursos visuais, brincadeiras compartilhadas e rotinas previsíveis podem ser úteis, mas devem ser adaptados individualmente. O objetivo não é fazer com que a criança pareça se comunicar de uma maneira considerada típica, e sim ampliar sua capacidade de expressar escolhas, necessidades, interesses, ideias e recusas.
As diretrizes do NICE recomendam que intervenções voltadas à comunicação social sejam ajustadas ao nível de desenvolvimento da criança e busquem aumentar a compreensão e a responsividade dos adultos diante dos seus padrões de comunicação. Essas intervenções devem ser conduzidas ou orientadas por profissionais capacitados. Consulte as recomendações do NICE.
Estimular em casa substitui a fonoaudiologia?
Não.
As estratégias cotidianas podem enriquecer as interações familiares, mas não substituem uma avaliação individualizada nem um acompanhamento profissional quando eles são necessários.
O fonoaudiólogo pode avaliar aspectos como:
- compreensão da linguagem;
- expressão por fala, gestos ou outros recursos;
- clareza da fala;
- intenção comunicativa;
- interação social;
- uso funcional da comunicação;
- necessidade de comunicação alternativa;
- habilidades auditivas relacionadas à comunicação;
- impacto das dificuldades na rotina.
Quando a criança já realiza acompanhamento, a família pode pedir orientações para integrar os objetivos terapêuticos às situações reais do dia a dia.
Quando procurar orientação profissional?
O desenvolvimento não acontece de maneira idêntica para todas as crianças. Marcos do desenvolvimento são referências para acompanhar habilidades, não instrumentos isolados de diagnóstico.
Converse com o pediatra, fonoaudiólogo ou outro profissional qualificado quando:
- a criança perder habilidades que já utilizava;
- houver dúvidas sobre sua audição;
- ela possuir poucas formas de expressar necessidades, desconfortos ou recusas;
- as dificuldades de comunicação causarem sofrimento ou frustração frequente;
- a família ou a escola perceberem mudanças importantes;
- houver preocupação com a compreensão da linguagem;
- a criança não estiver alcançando diversos marcos esperados para sua faixa etária;
- a família sentir que precisa de estratégias mais individualizadas.
O CDC orienta as famílias a não esperar quando a criança perde habilidades, não alcança marcos importantes ou apresenta outros sinais que gerem preocupação. Consulte os marcos do desenvolvimento do CDC.
Buscar uma avaliação não significa concluir antecipadamente que existe um diagnóstico. Significa compreender melhor as necessidades da criança e identificar quais apoios podem ser úteis.
Pequenas interações constroem comunicação
Estimular a comunicação não exige materiais caros, atividades longas ou respostas perfeitas.
O ponto de partida está nas trocas que já acontecem: perceber um gesto, responder a um som, esperar uma iniciativa, comentar uma brincadeira, oferecer uma escolha e reconhecer uma recusa.
Quando o adulto observa com atenção e responde de maneira clara, a criança aprende que suas mensagens têm valor.
Comece escolhendo um único momento da rotina. Pode ser o lanche, o banho ou uma brincadeira curta. Fale um pouco menos, observe mais e deixe espaço para que a criança participe à sua maneira.
A comunicação cresce dentro das relações — uma troca de cada vez.
Fontes consultadas
- Center on the Developing Child — Serve and Return
- American Speech-Language-Hearing Association — Supporting Your Child Who Has a Communication Disorder
- American Speech-Language-Hearing Association — Evidence-Based Practice for Birth–3
- Centers for Disease Control and Prevention — Developmental Milestones
- NICE — Autism Spectrum Disorder in Under 19s: Support and Management